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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Os Açores, o centralismo e a regionalização

Como é sabido, o Governo da Região Autónoma dos Açores apresentou à Assembleia Legislativa Regional, no âmbito da aprovação do Orçamento, uma norma que prevê a criação de um subsídio destinado aos trabalhadores da administração regional com vencimentos entre 1.500€ e 2.000€, de valor correspondente ao montante que a Lei de Orçamento do Estado para 2011 retira à tabela de vencimentos dos trabalhadores públicos que aufiram esses vencimentos.

Não vou agora argumentar a favor ou contra essa medida, da sua eventual correcção no contexto regional ou da sua eventual incorrecção no contexto nacional.

Queria apenas esclarecer um ponto, salientar outro e mostrar a minha estupefacção.

O esclarecimento prende-se com algumas vozes que já se levantam a dar este caso como um mau exemplo da regionalização. Eu diria que é verdade! É um mau exemplo da regionalização porque não tem nada a ver com a regionalização do continente. Explico-me. As regiões autónomas são regiões legislativas, ou seja, dotadas de uma assembleia legislativa – como a Assembleia da república – e de um Governo com capacidade legislativa própria, no âmbito das competências atribuídas pelo respectivo Estatuto Político Regional. No continente o que existirão são autarquias locais de nível regional, ou seja, entidades com competências regulamentares mas sem capacidade legislativa. No continente a Junta regional nunca poderia aprovar um subsídio aos seus funcionários, da mesma forma que as câmaras municipais o não podem fazer.

O ponto que eu quero salientar é o facto de o nosso centralismo ser tão arreigado e tão absurdamente grotesco, que se permite que um representante político – ou será antes um comissário político? – como é a figura do Representante da República na Região Autónoma dos Açores, poder vetar politicamente um diploma legislativo! Note-se que enquanto o Presidente da República detém uma legitimidade democrática própria que lhe permite, com naturalidade, dizer que discorda politicamente de uma lei e por isso exercer o veto político, nas regiões autónomas temos alguém nomeado a exercer esse veto. E nem o facto de ser nomeado pelo Presidente da República nem o direito de veto estar previsto na Constituição fazem com que deixe de ser anacrónico que quem não tem legitimidade democrática exerça vetos políticos sobre quem a tenha.

A minha estupefacção tem a ver com as expressões utilizadas nos motivos alegados para o veto. Em primeiro lugar veta porque tem dúvidas sobre a constitucionalidade da norma! Que se saiba quando se tem dúvidas sobre a constitucionalidade das normas envia-se os diplomas para o respectivo Tribunal… Em segundo lugar, a mensagem que enviou à Assembleia Legislativa Regional é de total e completo desrespeito por um órgão eleito democraticamente, própria de quem é um comissário político sem ter legitimidade democrática. Falar em “razões de carácter ético ou ético-político, que desabonam e condenam uma tal medida”, e que a realidade que esteve na origem da medida “silencia ou despreza a outra parte da realidade nacional envolvente” é uma linguagem demasiado deselegante e imprópria não compaginável com o órgão a que se dirige. Muito mais quando a seguir se afirma que a medida é “discriminatória e profundamente injusta, se não mesmo de incompreensível egoísmo”.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Regionalização

Completamente de acordo com o teor do post abaixo do Manuel Monteiro sobre a regionalização. Mais órgãos, eleitos, funcionários, burocracia, para quê?

Uma outra forma de regionalizar, ou melhor de descentralizar e desconcentrar funções do Estado, poderia passar pela reorganização das autarquias locais, diminuindo drasticamente o número de municípios (308...) e de freguesias (mais de 4 mil...), mas conferindo-lhes mais poderes e aumentando a sua responsabilidade.

Ou será que estou a ver mal?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Estado Garantia - 2

O post de António Tavares "Estado Garantia" mistura coisas não relacionáveis. E é, para um regionalista como eu, profundamente perigoso. Não pelo que diz, porque quanto ao tema, verdade seja dita, nada refere, mas pelo que aparentemente pretende induzir ao colocar em pé de relação a reforma da segurança social e da saúde, a sua sustentabilidade (já agora o que faria ao SNS?), com o fim do corpo administrativo intermédio entre o Estado central e os municípios.
É que tematicamente as duas reformas não estão relacionadas.

Quanto à regionalização, já tinha ouvido o anterior Secretário de Estado da Administração Local, Eduardo cabrita, dizer que dentro do Governo havia quem defendesse (ele próprio, desconfio) que com as novas tecnologias e os fáceis acessos a todo o País, não fazia sentido regionalizar o País e que muitos serviços podiam ser geridos a partir de Lisboa. Se repararem o famoso PRACE - Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado acabou com quase todos os serviços com autonomia com sede fora de Lisboa ou transferiu-os para a capital (por exemplo o Centro Português de Fotografia, no Porto, passou de serviço periférico com autonomia administrativa e financeira e equiparado a direcção-geral para uma direcção de serviço da DG da Cultura e a AdI - Agência de Inovação viajou até à capital).

Nas grandes empresas, banca, seguros... a partir de um certo nível hierárquico tem-se de ir para Lisboa. Com estas medidas o mesmo vai ocorrer na administração pública. É curioso que tanto se fale no combate à desertificação, na coesão territorial, na coesão social e tanto se faça para a prejudicar. É curioso que tanto se fale em municipalismo (não é incompatível com regionalização) e os presidentes de câmara ex-deputados furiosos centralistas se convertam em regionalistas (lembram-se de Castro Almeida como combatia demagogicamente a regionalização no referendo?). É curioso...